Marcos Importantes na História do Cortejo
1899 | Centenário da Sebenta, com cortejo de carros alegóricos. |
1905 | Enterro do Grau. Cria-se a primeira plaquete e participam comerciantes com patrocínios. |
1913 | Olha o Boné! Durante anos o cortejo da Queima das Fitas realizou-se a 27 de Maio. |
1919 | Considera-se a primeira Queima das Fitas organizada. |
1929 | Primeiro cortejo com júri, já com o percurso estabelecido através da Praça da República. |
2008 | O dia do cortejo deixa de ser à terça-feira e passa a ser ao domingo. |
Por: Isabel Oliveira
Notícia. Cortejo mantém tradição das críticas sociais
O Cortejo dos Grelados realizou-se no dia 8 de Maio, onde milhares de estudantes percorreram as ruas de Coimbra, entre a Alta e a Baixa, celebrando a Queima das Fitas com um desfile marcado pelas críticas à actual situação política, cumprindo assim a tradição.
Carro 'caos social' do curso Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Coimbra
Após uma longa espera entre a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Largo D. Dinis, começaram a sair os primeiros carros por volta das 15h00, onde iam desfilando perante o olhar atento de milhares de pessoas que faziam um esforço para conseguirem assistirem aos festejos dos estudantes. Perante um dia quente de primavera, os alunos da UC e dos institutos politécnicos percorreram o habitual itinerário entre o Pólo I da Universidade e o Parque Manuel Braga, junto ao rio Mondego. Segundo a Organização, uma centena de carros alegóricos integraram o cortejo, equivalendo a 2500 estudantes que participaram dentro das viaturas enfeitadas com as já habituais flores de papel com as cores dos diversos cursos.
Olívia Silva, estudante do terceiro ano de Ciências Farmacêuticas, considera o cortejo “um marco na vida de um estudante. É um dia em que as pessoas se divertem, esquecem-se de tudo, convivem com familiares e amigos”. Para esta estudante, as críticas fazem parte da tradição, e, como tal, não devem ser esquecidas nos carros alegóricos. “No meu carro criticamos a fórmula de atribuição das bolsas, a nossa cantina da Faculdade e a sobrecarga de avaliações a que estamos sujeitos.”
Outro elemento que não podia faltar à festa dos estudantes é a cerveja. Desde banhos a bebedeiras, do inicio ao fim do cortejo se fez notar a presença e o excesso desta bebida que por muitos foi criticada. “Acho um desperdício muito grande por parte dos alunos. Que queiram beber, tudo bem, até compreendo, mas desperdiçar tanta quantidade de bebida acho pecado. Em tempos de crise, acho que deveriam empregar o dinheiro doutra forma, inclusive em instituições de caridade social” afirma Soledade Martins, familiar de uma estudante.
O Cortejo dos Grelados é o ponto mais alto das festividades da Queima das Fitas. Grelados esses que constroem os seus carros alegóricos ao longo do ano, com flores das cores das respectivas faculdades, em que se destacam, na sua maioria, pelos seus nomes e pelas mensagens de protesto. Os estudantes acenando à família e à cidade, vão descendo da Alta Universitária até à Baixa da cidade, percorrendo as principais ruas de Coimbra, numa tarde recheada de alegria, magia e boa disposição.
O cortejo da Queima das Fitas de Coimbra 2011, em que participaram, na tarde do dia 8 de Maio, 106 carros alegóricos, deixou nas ruas da cidade por onde desfilou e artérias circundantes, “16 toneladas de resíduos sólidos”, segundo fonte da autarquia. É de destacar que destas 16 toneladas, 6,5 eram garrafas de plástico e latas de bebidas e, que, apenas meia tonelada dos resíduos correspondeu a vasilhame em vidro.
Excesso de lixo? É assim que a festa é feita!
Não critico os excessos cometidos pelos estudantes, embora o pudesse fazer. Critico, positivamente, a forma como os serviços de limpeza da Câmara Municipal de Coimbra procederam perante tamanha revolução ambiental. Poucas horas após o término do cortejo, ou ainda com ele a decorrer, já se via as cores das ruas, já se andava livremente sem se dar um pontapé numa lata ou garrafa de bebida, já não sentíamos os sapatos a colar ao chão devido ao desperdício de bebida. Foi, de facto, notável, a eficácia destes serviços municipais.
Que imagem terão os estrangeiros que assistiram à maior festa académica do país? Boa certamente! A Queima das Fitas é algo único, algo que se sente, se vive, se festeja como em mais lado algum. Coimbra pára por completo para ver o cortejo passar, só para se perceber a importância de tal acontecimento. Bebedeiras, choros, risos, emoções fortes, aventuras, encontros, tudo faz parte da festa que é muito procurada por cidadãos além-fronteiras. Portugal apresenta valores muito elevados de sujidade. Sim, porque somos um país onde pouca gente sabe o significado de caixotes do lixo, infelizmente. Mas no dia do Cortejo é diferente, tudo se perdoa, tudo faz parte. O facto de se acumular muitas toneladas de resíduos sólidos não descreve por completo a imagem que Portugal passa aos outros, pois é o dia dos estudantes, o dia do cortejo, o dia de Coimbra, a semana da Queima das Fitas! Sujou-se, mas limpou-se! E é essa imagem que fica, a imagem de alguém que se preocupa com o ambiente e a imagem de trabalhadores sérios e eficazes que foram capazes de fazer desaparecer 16 toneladas de resíduos sólidos em pouco tempo.
Por: Isabel Oliveira
OPINIÃO. Rendição ao Cortejo de Coimbra
Coimbra corteja, e bem! Ficar rendido ao desfile dos carros alegóricos coloridos que serpenteia por entre as principais ruas e artérias da cidade é inevitável – que o digam os estudantes.
A tradição não está em crise. Apesar dos 106 carros alegóricos representantes de cursos e faculdades darem foco à crise política e à chegada do FMI ao país, o espírito dos jovens neste dia está longe da recessão. Perto disso, num fácil trocadilho de palavras, só mesmo a ressaca! Mas essa, a mal vista ressaca, chega como produto de um convívio “ saudável” e de uma folia quase a tocar o carnavalesco, resulta de um espírito uno e não de contínuas divergências políticas.
Os grelados (na sua maioria estudantes do 2º ano) subiram, na tarde de Domingo (dia 8), aos carros alegóricos em que tinham investido meses antes e decorado com flores e mensagens nos últimos dias. Distribuíram cerveja e animação. Os que seguiam os carros: caloiros, finalistas (cartolados), e familiares, não escaparam a um “banho dourado” com cheiro a cevada.
A instabilidade marcou o cortejo. Por um lado, a instabilidade política e financeira do país retratada através de sátiras, por outro, o desequilíbrio de alguns estudantes já mais animados e festivaleiros. Note-se, ainda, a recente passagem do dia do Cortejo de terça-feira para Domingo; É que em dia de semana “a cidade ficava intransitável”, muitos dizem.
Favorecidos ficam os cidadãos trabalhadores, que já não têm de se confrontar com as ruas cortadas ao trânsito, e os familiares dos estudantes universitários que, a um Domingo, têm maior disponibilidade de acompanhar o percurso académico dos seus “orgulhos”.
A instabilidade de que falei não se aplica aos ponteiros do relógio. Em dia de cortejo, em Coimbra, não existe uma percepção temporal. Há algo de místico e de inexplicável em fazer parte de uma tradição secular. É vibrante ser parte integrante da acção e do acontecimento que, outrora, apenas se ouvia relatar. Creio que a maioria dos estudantes se sentiu assim: como continuadores de uma saga ancestral que a cada ano se repete no conteúdo e se renova na forma.
O real conteúdo do cortejo de Coimbra é a chama da tradição (numa forte analogia aos carros que a meio do cortejo se incendeiam parcialmente); é a paixão pelo traje académico, pela cidade do conhecimento. Cidade que ensina não apenas nas salas das universidades, mas também nas ruas, caindo, chorando, rindo.
Todo o cortejo é uma dança peculiarmente abençoada. Este ano, não pela chuva, mas pela cerveja. Sim, os excessos existem. Existem em Coimbra por altura da Queima das Fitas, existem, igualmente, na parafernália de informação que é transmitida nos jornais e televisões todos os dias – grande parte dela informação inconclusiva (desinformação).
Há excessos e excessos. Exceder pode significar, em alguns casos, ultrapassar. Considero o cortejo assim, um ultrapassar de barreiras ideológicas, uma comunhão entre cursos e faculdades, o passar de caloiros a pastranos, de finalistas a doutorados. Expandir o corpo, a alma e a mente. É assim que defino, se é que se define, o que muitos estudantes sentem nesta altura.
As consequências? Um dia diferente, motivador e, com certeza, para ficar nas memórias de Coimbra e de uma vida.
Na baixa da cidade, o comércio ganha com a atracção académica e a chegada de visitantes. No trajecto dos carros alegóricos, desde o Largo D. Dinis até ao rio Mondego, 16 toneladas de lixo é o rasto que milhares de estudantes deixam para trás. A essa altura, já o sol se aninha às águas frias do Mondego, e os mais corajosos, de alma aquecida, não hesitam em mergulhar no rio. Logo aí se percebe a união, a fusão da tradição dos estudantes com todos os elementos da cidade de Coimbra.
Em noticiários que, nesse dia, tive oportunidade de ver, assisti a uma caracterização do dia do cortejo bem diferente da que eu mesma experienciei. Apontava-se a falta de imaginação e de originalidade dos carros, contavam uma tradição resumida a bebidas alcoólicas e centravam-se no futuro dos finalistas e nas dificuldades profissionais que, depois da licenciatura, são quase inevitáveis tendo em conta a situação de Portugal.
Ângulos de visão e interesses diferentes, bem sei.
Prezo a tradição, prezo uma realidade vivida e uma saudade eterna. Mesmo quando o país se afunda nos braços sufocantes da Troika e do FMI, mesmo quando o mundo evolui e se moderniza, mesmo quando se diz que as novas gerações não preservam nem valorizam o passado… A Queima das Fitas de Coimbra é uma das provas de que a “mística” e a “história” podem ficar “para sempre na memória”.
Quer parecer-me que, em Coimbra, os jovens ainda sabem amar e, sobretudo, guardar aquilo que, algum dia, os fez aprender e crescer.
Ou não fosse Coimbra a cidade do conhecimento…
Ou não fosse a vida uma eterna balada da saudade…
Por: Paula Cabaço

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